(Uma das mais de 150 fichas de Florestan Fernandes no DOPS-SP)
Intuições se tornaram mais do que imaginadas. Vê-las formuladas em argumentos concisos, indo além das implicações piores possíveis é assustador, afinal, por quê e para que serve ou a quem servem as ciências sociais?
Vislumbrando de fora do olho do furacão talvez seja mais fácil criticar aqueles que empreenderam, no itinerário do saber, um trabalho intelectual formador de gerações e de posições, alguns e algumas, que lhes custaram a carreira, a exemplo do insigne Florestan Fernandes.
Que pensador de esquerda brasileiro esteve imune, sem ser perpassado pelos limites da nossa própria condição capitalista dependente, subalternamente associada ao mercado mundial e as potência imperialistas? Quase todos se embebedaram do ponto de vista burguês de conhecimento, pelo menos até 1964. Ser mais oumenos marxista ão importa, pois a derrota política em 1964 não foi por conta de diagnósticos corretos, mas deveu-se ao jogo das forças sociais, a força bruta e crua de uma coalizão de (civis, militares, religiosos, estudantes, classes médias, burguesias, militares, imperialismo). Hoje, vislumbramos melhor nosso passado, sem, todavia, poder mudá-lo!
Será que todas as ciências sociais e serviço social no Brasil contribuem para apaziguar o conflito social, são instrumentos para alargar a dominação inerente a ordem do capital em nome de uma objetividade vazia calcada em métodos empíricos e numa neutralidade formal do saber?
Seriam elas o extremo, realmente, da perpetuação da essência das contradições que mantém as desigualdades intrínsecas ao sistema metabólico do capital? No Brasil, esta relação social prosperou em meio à escravidão e imiscuiu-se ao sistema de valores advindos de uma visão social de mundo conservadora, católica-jesuítica e, sobremodo, racista, presentes e imbricados no desenvolvimento histórico da sociedade brasileira.
Na arena dos interesses sociais e políticos é impossível não tomar partido, tenhamos clareza das implicações daquilo que produzimos e fazemos na totalidade social. A ciência e as ciências sociais são produtos legítimos da burguesia e sua ascensão no planeta, mas, contém, elementos suficientes para negarem sua função original de instrumento saber-poder de dominação como ensina a teoria crítica. É preciso suplantar a ciência e as ciências sociais, restituir-lhes os atributos humanos para que deixem de ser servas do lucro e da burguesia. Nossos métodos de conhecimento são nossos maiores inimigos! As ciências sociais enquanto racionalizações burguesas são assustadoras.
Existe, porém, uma tradição crítica preciosa nas ciências sociais brasileiras, que pensou o Brasil e legou preciosas obras como as de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior, Milton Santos, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes, Celso Furtado, Guerreiro Ramos, Jacob Gorender, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Paulo Freire, Antônio Cândido, Ruy Mauro Marini, Teotônio Santos, Octávio Ianni etc.
Existe, porém, uma tradição crítica preciosa nas ciências sociais brasileiras, que pensou o Brasil e legou preciosas obras como as de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior, Milton Santos, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes, Celso Furtado, Guerreiro Ramos, Jacob Gorender, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Paulo Freire, Antônio Cândido, Ruy Mauro Marini, Teotônio Santos, Octávio Ianni etc.
Nos anos 1950, essa tradição conforma-se numa gama de escritos deixados por pensadores ligados às instituições (ISEB, CEPAL), aos partidos políticos (PCB, POLOP, PTB), aos teatros (Teatro Experimental do Negro) etc.. Seus autores, e outros da América Latina foram perseguidos por suas ideias subversivas. Mas, na verdade, eles eram "homens multiplicadores", de enorme capacidade de formar novas gerações conforme eles, com novos valores democráticos, igualitários, transformadores. Os projetos deles, para a infelicidade da sociedade brasileira, foram violenta e amarguradamente derrotados. Creio que a bancarrota não desvalida completamente essa tradição crítica do pensamento brasileiro para pensar o presente, só porque foram uma "geração perdida". Estamos também em outro momento histórico, porém, para que ele se desenvolva retomará ou buscará soluções para problemas, colocados e equacionados por esses autores, sob os ombros gigantes de outros intelectuais de outros países, principalmente europeus.
Para retomar o processo de democratização real da sociedade brasileira, estes e muitos outros autores são fundamentais, precisarão ser bem conhecidos. Afinal, são eles que nos legaram as chaves de acesso ao conhecimento transformador do Brasil, eles são a memória do capitalismo dependente.
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