Primeira ayuasca

Num trabalho de Santo Daime no dia em que começou a Era de Aquários ou um dia muito especial, coincidência ou não.
Neste dia de chuva, mas com o sol também resplandecendo luz e fazendo do céu um espetáculo de sinestesias, o ritmo dos trovões se adequou às minhas expectativas e anseios em meio a pessoas novas ou desconhecidas, que almejavam se auto-conhecer e sentirem-se bem consigo mesmas. Isso através de uma bebida milenar que representa os mistérios das culturas e do homem. Como é possível a uma pessoa ter descoberto ou inventado na natureza a ayuasca? Quão brilhante foi o sujeito que soube elaborá-la ou será que, embora dependa do trabalho humano, seja ela – equivalente a vida – dádiva a nossa espécie (sapiens, sapiens) por uma força além do homem? Vai saber ou para quê compreender tais respostas é o que a bebida proporciona, fazendo-se entrar em contato e conflito consigo mesmo, desmontando convicções, ceticismos na reflexão de fatos que marcaram subjetividade. Lembranças sempre muito chocantes e bem guardadas no ressentimento de nossa interioridade e bastantes dispostas a influir nas ações cotidianas. Traumas, péssimas ações, tudo que se passa na formação ou deformação de uma pessoa em vista dos valores mais universais e abrangentes, e lhe foi marcante perpassam a tomada da consciência pela ayuasca. Ela abre uma dimensão, a princípio, obscura e toda temporalidade se esvaece e se é tomado por uma força inexplicável como se o eu abrigasse as fronteiras da vida e da morte, desse ciclo que não se encerraria no plano sensível. Tantas sacadas, pensamentos inusitados, fortíssimas emoções, um olhar mais atento de si para si e os sentimentos acompanham a lucidez proporcionada. O mais inusitado, e isso é ontológico, foi ter sentido vergonha e culpa de ser da espécie sapiens, sapiens ou, antropologicamente correto, do ocidente, da civilização do capital. Olhando para as flores de um pé de boldo da terra, logo, questionei a classificação, diferença e hierarquização que fazemos dos seres vivos, transformados em mercadorias ou coisas e pude sentir a alma, a vida existente naquela planta. A lamentar a destruição que nossa sociedade desencantada, capitalista, imperialista neoliberal e reificada vêm causando no planeta, eu disse aquela alma: que vergonha estar aqui diante de ti e pertencer a um coletivo de pessoas que se exploram umas às outras e irão ainda acabar consumindo todo planeta, envergonho-me por eles!(15/02/2009)

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