"O tempo é o senhor de todas as traições"


A perfídia do relógio é que mente à fé jurada.  O tempo nos trai a cada instante, a cada lapso de mensuração,  registra promessas, feitos,  aquilo tudo que acreditamos que somos como gênero. Porém, somos apenas animais dotados de linguagem, liberdade e capacidade de trabalho.

O ponteiro que antes circulava tornou-se digital. Analógico ao modo como se pensou e se vivenciou o tempo nas diversas sociedades que existiram e vive-se nas que existem, uma das quais somos parte. 




Todas muito diferenciadas, mas existentes em razão de seus interesses, as sociedades criam seu tempo a partir de suas culturas.

O tempo da natureza e o espaço do universo escapam à linguagem humana, possuidora de uma racionalidade acreditada por aqueles que se nutrem dela. É mesma razão de relação entre meios e fins, a que construiu nosso tempo social herdado do contato entre diversas civilizações, a que nutre nossas desgraças nas diversas instâncias.

Por que acreditarmos no tempo tal como cremos nós ocidentais, se ele é a medida de toda dominação das pessoas através do trabalho?

O relógio é o símbolo da dominação burguesa que organiza a sociedade e põe a maioria para trabalhar e prover suas necessidades, padrão de vida fundado no consumo e na acumulação de riquezas. O relógio representa a imersão ao cotidiano, ao ócio ou ao trabalho. Por que acreditarmos no tempo se ele existe para nos dominar?

Somente mesmo aqueles que são cobrados pelo tempo, que vivem em função dele comemoram a sua passagem. O tempo não está passando, nós é que estamos a morrer. Mortais isso! Somos nós.

No tempo registramos nossas histórias e no tempo elas se esvaecem. A história é um privilégio dos dominantes, apenas lembramos os grandes feitos daqueles que exploram e vivem em função do trabalho de seus escravos semelhantes. 

O tempo registra nossos feitos e nossos valores, mas acabamos por contradizê-los. Assim somos: um absurdo em contradição. O tempo desdiz-nos, ensina-nos, mata-nos.

O tempo  humano é uma página do livro do universo. O tempo que estamos a marcar é um entre outros muitos que existiram e que são passíveis de existir. Todavia, nosso tempo é a origem de nossos males. Governa-nos e mede o valor de nosso trabalho, tornando-nos dependente dele. 

A história de nosso tempo ocidental terminará com o capitalismo! E com isso levaremos todos, mesmo aqueles que vivem em harmonia com o tempo natural da biosfera, para o inferno. Mas humanamente o inferno é pior para aqueles que estão à margem de seu abismo.

E os desgraçados mais uma vez começarão a sentir seus efeitos.

Se todos os exploradores morressem ao mesmo tempo acabaria a exploração? Se todos os tristes morressem ao mesmo tempo, acabaria a tristeza? As relações  que nos envolvem dependem unicamente de nós e nossos emaranhados para se transformarem.

Somos mortais. Mas, se morrêssemos todos juntos, simultaneamente, acabaria a humanidade! 


Diria Marx, ainda vivemos na pré-história do tempo da humanidade. Comer e reproduzir, assim é a maioria da vida dos explorados. Sobrevivem e representam algum valor apenas como força-de-trabalho no mercado.

Digo eu, o tempo e o calendário são uma enganação, iludem exploradores e sujeitados. O relógio registra toda nossa perfídia, nosso auto-engano enquanto pertencentes ao tempo judaico-cristão-ocidental.

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