Com muita tristeza recebemos a notícia do falecimento de nosso companheiro Márcio Ricardo de Carvalho, que cursava o doutorado em sociologia no IFCH/Unicamp.
O conheci pessoalmente em 2002, morei com ele um tempo na mesma casa, na moradia estudantil da UNESP/FFC. Ele era uma boa pessoa, sobressaia o militante contrário às dominações e às opressões de todas as ordens. Solidariedade era sua palavra! Mas não no sentido católico ou cristão. Solidariedade socialista, como se diz no hino da internacional:
"Senhores, patrões, chefes supremos,
Nada esperamos de nenhum!
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair desse antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós diz respeito!"
Márcio era também um estudante talentoso da classe trabalhadora, sempre sobreviveu de bolsas nas universidades públicas de São Paulo (Unesp e Unicamp), desde bolsas assistenciais (alimentação, moradia) às bolsas de mérito como iniciação científica, mestrado e doutorado. Em seu itinerário, ele partiu de uma situação desprivilegiada, como é muito comum para a maioria da população brasileira e foi muito longe. Formou-se como pessoa, conheceu muita gente que o admira, viajou bastante.
Viveu... Sem ter que pagar pela educação básica e pela universidade. Nesta, não gastava para morar e ainda recebia, porque era um pesquisador bolsista. Rendário da Fapesp, do CNPq, da Capes. Era um grande privilegiado, mas, que fique claro, pelo seu esforço pessoal, pela sua inteligência e sensibilidade. Não um privilégio inerente às classes dominantes ou assegurado pela cultura do favor.
Como se sabe, as universidades públicas paulistas inspiradas em um reacionário meritocratismo, devido ao vestibular e à resistência em adotar um sistema de cotas, não são tão frequentadas sequer por pessoas que estudaram em escola pública (quanto aos afrodescendentes são uma rala minoria do público atendido). Aqueles que lutam e lutaram para democratizar essas universidades foram e continuam sendo punidos pelos governos.
Infelizmente, Márcio foi um dos cinco estudantes punidos pela Reitoria da Unicamp, em 2012. O movimento de ocupação foi pacífico, não deixou danos ao patrimônio, muito pelo contrário, estava em defesa do patrimônio, da ampliação da moradia estudantil. Em consequência da punição do reitor covarde Fernando Costa, ele perdeu sua bolsa de doutorado, entre outras covardias do reitor, por participar de um movimento legítimo de ocupação dos estudantes, na moradia estudantil da Unicamp.
Depois disso, sem recursos materiais, a vida dele deve ter ficado, no mínimo, difícil em meio à pressão de escrever uma tese e concluir o doutorado sendo, como ele diria, "pobre".
Vem a triste notícia do falecimento, "o professor começaria a ministrar aulas a partir de segunda-feira em uma universidade particular no município" de Rondonópolis- MT. Tendo que defender sua tese, perdido a bolsa, restaria vender sua força de trabalho... Se não fosse o livre arbítrio que, às vezes, pode não ser tão livre como supomos.
Não dá para saber o que se passou com ele, obviamente. Entretanto, a repressão autoritária contra os movimentos dos estudantes da USP, UNESP e da Unicamp interfere na vida desses jovens. E interferiu de algum modo na vida de mais um desses estudantes combativos.
A sanha da recente onda de punições levada a cabo pelas reitorias dessas universidades, sob o manto do PSDB, gera consequências perversas para os estudantes e pesquisadores punidos.
Mais uma grande perda para a classe trabalhadora.
Ele tinha tudo, o destino em suas mãos!
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