Por Ricardo R. Shiota
A história do Haiti, país dizimado recentemente por terremotos, possui um significado especial na história do colonialismo europeu. Inicialmente conquistado pelos espanhóis e, a partir de 1697, cedido aos franceses, este país insurgiu-se contra o ocidente e foi duramente retalhado por isso. E agora, sofre ainda mais com as consequências das catástrofes geológicas.
O olhar racista (geográfico, biológico e cultural), que se confunde ao surgimento da antropologia, teve uma profunda inflexão histórica com a audácia do povo haitiano.
Em meio a uma visão de mundo capaz de abranger todos os povos, mas que colocava a civilização ocidental europeia como o ápice e o ponto de chegada da evolução dos demais, a Revolução Haitiana (1794-1804), promovida pelos escravos, inaugurou a primeira República negra da historia.
Com ela, todo o racismo e o preconceito do branco europeu em relação aos negros, que afirmava a incapacidade e necessidade de tutela dos escravos, recebeu uma contra prova por meio da insurreição que fez do Haiti o primeiro país do mundo a abolir à escravidão. A partir da diferença cultural, de estilos de vida e de fenótipos diversos ao do branco europeu, a essencialização do negro por supostos atributos que o fazia um ser inferior ao branco, promovida pela “ciência”, justificou tratá-lo como objeto de exploração.
O Iluminismo, universalista, cuja filosofia da história englobava todos os povos, de todas as regiões do planeta, situou cada um num patamar, classificando-os como “selvagens”, “primitivos”, “bárbaros”, etc. A semelhança ou diferença apresentada pelas demais sociedades em relação ao padrão europeu de civilização e cultura foi um dos critérios, auto-referentes, pelos quais se atribuía uma inferioridade intrínseca para os demais povos.
Aos negros fora reservado, por essa concepção registrada em livros, o último degrau da escala da evolução. Escravizá-los convertia-se automaticamente em civilizá-los e, no limite, convertê-los à "Deus", às crenças religiosas da igreja, naquele tempo. As "peças" antes de serem postas em navios negreiros e forçadamente deportadas da África, após serem trocadas por relações de escambo e vendidas por relações mercantis para servirem de mão-de-obra escrava à empresa colonial, elas eram batizadas. Com isso, os traficantes cristãos de negros escravos pretendiam levar os negros da África para o céu, pois acreditava-se que eles não tinham alma. Levava-os para o trabalho forçado e a completa alienação de si no "novo mundo", em prol de rústicas aristocracias locais, da Metrópole portuguesa e do capital mercantil batavo e inglês.
O fato é que ainda hoje essa construção europeia da diferença, em relação ao outro, subsiste nas profundezas do olhar de muitas pessoas no mundo, que veem aqueles que lhes são diferente, a partir de esteriótipos e características que lhes seriam intrínsecas e imutáveis. Um dos papéis das ciências sociais é justamente desconstruir tais concepções que legitimam, no plano internacional, políticas direcionadas aos países mais pobres e, no âmbito nacional, a partilha desigual dos recursos sociais através do racismo e do preconceito de cor.
A história da revolução haitiana é uma epopeia na história dos povos explorados, mas converteu-se em tragédia histórica pela brutalidade da contra-reação ocidental.
O Haiti contrabalanceou as crenças racistas do ocidente, ao provar a capacidade de os negros se rebelarem e fazerem-se, politicamente, senhores de um país com a fundação da República haitiana. Para manter-se, a nação livre teve que organizar um exército, sob a liderança de Jacques Dessalines, que lutou e derrotou, nada menos, que o exército francês dirigido por Napoleão Bonaparte. Organizaram uma nação, repartindo as riquezas naturais e onde todos os escravos da América podiam se refugiar para se tornarem livres. Liberdade, igualdade e fraternidade eram palavras de ordem, a dimensão crítica do Iluminismo que se tentou implementar.
Com efeito, o preço a ser pago pela liberdade veio em seguida, através de um embargo comercial de 60 anos, promovido por escravistas europeus e estadunidenses. Não bastasse isso, cercado posteriormente pelos franceses, o Haiti teve ainda que pagar aproximadamente 90 milhões de francos a título de indenização pela sua autonomia política.
Nos dias de hoje, o Haiti tornou-se o país mais pobre do continente americano e sofre ainda mais com os terremotos recentes. Significa, enfim, a proeza seguida pela punição severa imposta àqueles que contrariam a dominação econômica-política e cultural de uns seres humanos contra os outros, para se afirmarem livres.

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